NOSSA SENHORA DA CONSOLAÇÃO

Guimarães em dia de nevoeiro, linda como ela só. O nome completo da igreja da foto é Nossa Senhora da Consolação e Santos Passos. Ou, se preferir, Igreja de São Gualter, padroeiro da cidade. Ela fica fora da área declarada patrimônio mundial em 2001. Mesmo assim, é um dos cartões-postais de Guimarães. Isso se deve, em certa medida, aos belos jardins que se estendem à sua frente. Por ali devem passar milhares de turistas brasileiros todos os anos. Muitos, tenho certeza, nem se dão conta de onde estão. Esse é o Largo da República do Brasil, ligação direta entre a igreja e o centro histórico tombado pela UNESCO.

Igreja de Nossa Senhora da Consolação, em Guimarães

Em seu website, a Direção-Geral do Património Cultural (DGPC) escreve assim sobre a igreja:

“Antes da actual igreja, existia, no Campo da Feira, uma capela de dimensões reduzidas, mandada edificar em 1594, e que dispunha de confraria fechada. Esta confraria seria responsável, mais tarde, pela reestruturação do templo. Contudo, a falta de recursos levou a que durante muitos anos as obras estivessem paradas, até que em 1767 a Mesa decidiu avançar para uma solução definitiva, seleccionando um arquitecto e encomendando-lhe o risco do novo edifício.

Iniciada em 1769, data em que as plantas chegaram a Guimarães, a igreja de Nossa Senhora da Consolação deverá ser a última obra concebida por André Soares (1720-1769), o artista bracarense que, no Norte do país, levou mais longe as potencialidades do barroco e melhor interpretou as possibilidades e limites de um rococó de expressão católica. Nesta obra vimaranense, André Soares revela o caminho que seguiu desde o risco da Casa da Câmara de Braga, privilegiando uma maior depuração arquitectónica e decorativa, em detrimento do gosto rocaille que marcou outras obras suas, como a Capela de Santa Maria Madalena da Falperra.

Em termos planimétricos, a igreja é rectangular, com nave única de ângulos côncavos, e fachada principal ondulada. Contudo, esta acaba por ter pouco impacto ao nível da espacialidade interna, uma vez que a divisão entre vestíbulo e nave é bem acentuada. Ao conceber uma fachada convexa, o arquitecto fez projectar a secção central da mesma onde, na esteira de outras obras da sua autoria, concentrou os elementos decorativos em torno de um eixo vertical formado pelo portal, janela de sacada e frontão. Consequentemente, as janelas do coro encontram-se recuadas e oblíquas em relação ao eixo do edifício.

As torres laterais, mais recuadas, foram erguidas na década de 1860, pelo arquitecto portuense Pedro Ferreira. Estas não estavam previstas nos desenhos de André Soares e, de acordo com algumas gravuras do século 19 (entre as quais uma litografia de George Vivian), o aspecto inicial da fachada da igreja era mais desafogado, fazendo sobressair a secção central e aumentando o efeito cénico de dinamismo, provocado pela ondulação do pano murário. As torres, desproporcionadas em relação ao conjunto, eliminaram a unidade da fachada. Esta teatralidade era ainda acentuada pela zona envolvente, principalmente através da ponte que se desenvolve no eixo da igreja. As esculturas de granito que a decoravam, foram posteriormente transferidas para a fachada da igreja, sendo o seu frontispício revestido por azulejos. A actual escada remonta, igualmente, aos meados do século 19, com as balaustradas e esculturas de forte efeito cenográfico.

No interior, destaca-se o retábulo e tribuna, da autoria do mestre entalhador José António da Cunha. A morte precoce de André Soares terá impedido que este desenhasse também o interior, embora o plano seguido pareça ter respeitado o projecto do arquitecto. Esta igreja aproxima-se ainda do modelo utilizado por André Soares na Igreja da Lapa de Arcos de Valdevez, quer a nível da fachada, quer ainda ao nível da planta. Curiosamente, evoca também outros edifícios brasileiros, principalmente a Igreja da Ordem Terceira de São Francisco de Ouro Preto, em Minas Gerais, com planta de ângulos.”

© Foto: Eduardo Lima / Walkabout

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