MAR DE VINHEDOS

Quinta de Ervamoira, no Douro Superior, vista de três pontos distintos: de longe, desde o Miradouro de São Gabriel, em Castelo Melhor; mais de perto, da estrada que leva ao sítio arqueológico de Penascosa; e bem de pertinho, ou melhor, lá de dentro da quinta. Em Ervamoira, passei algumas horas saborosíssimas – entre um belo almoço, boas taças de vinho, um giro pelo museu e uma volta completa pela propriedade a bordo de um todo-terreno. Se essa mesma oportunidade quicar na sua frente algum dia desses, não deixe, sob hipótese alguma, de encher o pé e partir para o abraço. Trata-se de um daqueles passeios que não se esquecem jamais.

A imensidão da Quinta de Ervamoira vista do Miradouro de São Gabriel, em Castelo Melhor: 234 hectares de área total

Ervamoira vista do Miradouro de São Gabriel, em Castelo Melhor: 234 hectares de área total

Reproduzo a seguir trechos de um texto sobre Ervamoira escrito por António Sá para o Público:

“A partir da pacata localidade de Muxagata, poucos quilómetros a sul de Vila Nova de Foz Côa, podemos aceder a uma das quintas mais peculiares do Alto Douro Vinhateiro. A história do local funde-se com a geologia da Terra, se quisermos pegar pela temática do xisto local; abraça a arte paleolítica, com boa parte das gravuras rupestres mais representativas situadas mesmo em frente; segue depois pelo período romano, pela Idade Média, e vem até aos nossos dias com a produção de vinhos de renome. Por isso, uma visita à Ervamoira tem de ser encarada como uma viagem no tempo… com tempo para ser plenamente apreciada, como o próprio vinho.

Após Muxagata, o caminho em terra batida depressa se embrenha na paisagem agreste, para ir descendo em direcção à margem esquerda do Côa. Durante o tempo seco, é o calor e a poeira que desafiam os nossos limites, tornando o ar duplamente irrespirável; quando chegam as chuvas, é a vez da lama e das águas da Ribeira de Piscos condimentarem o acesso – nada que aflija os veículos todo-o-terreno de serviço ou, sequer, os nossos sentidos, que até desembrutecem com o temperamento de uma região tão rija quanto generosa. A chegada é anunciada por um mar de vinhedos, em ondulação suave voltada aos quadrantes sul e nascente, e povoado pelas cinco castas tradicionais da região. Na primavera, os tons de verde contrastam com o amarelado das encostas, enquanto durante os primeiros dias de outono uma paleta de ocres e vermelhos pinta os horizontes com um insuperável ‘bouquet’ visual. Independentemente da altura do ano, mais do que as tonalidades que empresta à paisagem, a vinha tem aqui um grafismo especial; é algo de que se gosta à primeira, mas que só se interioriza à segunda, quando nos explicam que Ervamoira foi a primeira e é a única vinha integralmente plantada na vertical – método também apelidado de ‘vinha ao alto’.”

A propriedade vista da estradinha de terra que leva ao sítio arqueológico de Penascosa, na margem oposta do Côa

Mais de perto, da estrada que leva às gravuras de Penascosa, na margem oposta do Côa

A casa de xisto que abriga o museu: uma espécie de Arca de Noé

A casa de xisto que abriga o museu: espécie de Arca de Noé

“Foi em 1974 que José Ramos Pinto Rosas viu nestas terras a localização perfeita para uma quinta modelo na produção de porto e vinhos de mesa. Baseado na experiência de José Sobral, que durante anos trabalhara na propriedade (então apenas dedicada às culturas da oliveira e do centeio), e nos conhecimentos do enólogo João Nicolau de Almeida, a ideia encorpou naquilo que agora estamos a ver e que, daqui a uns minutos, podemos mesmo provar.”

Vinhas ao alto e plantadas por talhões: primeira quinta do Douro com essas características

Vinhas plantadas ao alto e por talhões: primeira quinta do Douro com essas características

Vale do Côa

Videiras correndo na direção do Côa: gravuras de Penascosa logo ali, do outro lado do rio

“Praticamente no final do trajecto, os contornos de uma casa de xisto isolada erguem-se acima dos bardos, como um farol ao cabo deste oceano de Baco. É o Museu do Sítio de Ervamoira – uma espécie de Arca de Noé que perpetua a memória da quinta –, recuperado e inaugurado em 1997 após a decisão governamental de suspender a construção da barragem do Côa. Se as gravuras e a propriedade já partilhavam o mesmo contexto paisagístico, a partir desse momento, salvas de uma submersão compulsiva, passaram também a partilhar o mesmo desígnio: relembrar aos homens a cegueira das suas precipitações. E assim entramos neste humilde e grandioso templo.

As suas quatro salas, maiores do que a volumetria do edifício deixa adivinhar, revelam-nos os diferentes aspectos da região onde se insere a quinta. Primeiro, abordam-se os factos geológicos, paisagísticos, biológicos e arqueológicos, com especial incidência nas gravuras rupestres do paleolítico que se encontram fora e dentro dos seus limites. Depois, passa-se à realidade da viticultura, onde se explica a tipologia do plantio, as diferentes castas, e se dá a conhecer os visionários que deram forma a tudo isto. A sala seguinte é partilhada entre uma exposição permanente dos achados numa estação arqueológica romana e medieval (diversas peças de cerâmica, moedas romanas, um sarcófago, entre outros) e uma temporária, dedicada à pintura, escrita ou trabalhos científicos inspirados no contexto geográfico da Ervamoira. Uma última câmara reserva-nos uma viagem à história da Ramos Pinto, através dos rótulos mais emblemáticos, e a oportunidade de levar para casa um pedaço do seu património – sob a forma mais óbvia, numa garrafa do conhecido Duas Quintas, ou através de uma reprodução dos ousados posters Belle Époque com que a casa fazia anunciar os seus néctares.”

O outono no Douro Superior: uma paleta de ocres e vermelhos

Outono no Douro: uma paleta de ocres e vermelhos

Pôster de estilo Belle Époque, usado pela Ramos Pinto no início do século 20 para divulgar seus vinhos: ousadia

Pôster do início século 20 usado na divulgação dos vinhos Ramos Pinto: ousadia

© Fotos: Eduardo Lima / Walkabout – Todos os direitos reservados (1 a 6); Reprodução (7)

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