UMA VISITA AO CONVENTO DE CRISTO

Mais um episódio da série Visita Guiada, desta vez sobre o castelo e a charola do Convento de Cristo. Quem revela os segredos da fortaleza templária é o historiador Paulo Pereira, professor da Faculdade de Arquitetura de Lisboa e especialista em arte portuguesa.

O CORAÇÃO DA ORDEM DO TEMPLO

Eis a charola do Convento de Cristo, em Tomar, o mais bem preservado monumento templário em toda a Europa. Assim, vista de fora, não dá para perceber direito, mas trata-se de uma rotunda octogonal, claramente inspirada na da Igreja do Santo Sepulcro, em Jerusalém. Tem a altura de um prédio de três andares. E sua estrutura ainda é a original, do século 12.

A charola vista do lado de fora do Convento de Cristo: rotunda octogonal com a altura de um prédio de três andares

A charola vista de fora: rotunda octogonal com a altura equivalente a de um prédio de três andares

O site oficial do convento descreve assim o oratório: “A charola do Convento de Cristo, célebre por ser, na sua origem, um dos mais extraordinários exemplos da arquitectura templária, pertence à campanha de obras românica e gótica, dos séculos 12 e 13. Trata-se de um edifício poligonal, com oito faces no tambor central, desdobradas em 16 faces no exterior, que pretende reproduzir idênticos edifícios de planta centralizada, conhecidos dos templários e inspirados na Igreja do Santo Sepulcro de Jerusalém. Concluída no século 12, possuía porta a nascente que se manteve em funcionamento até a reforma manuelina.”

Visitantes diante do oratório: inspirado no Santo Sepulcro

Visitantes diante do oratório: inspirado no Santo Sepulcro

“Sob o impulso do Infante D. Henrique, quando este foi governador da Ordem de Cristo (1420-1460), procedeu-se à primeira alteração do edifício, com abertura de dois tramos a poente, de modo a instalar-se aí o coro e a tribuna. Desta época datará também o tubo de órgão de madeira e couro, ainda visível na parede norte da charola.”

A decoração é dos séculos 15 e 16: obra promovida por D. Manuel

Decoração dos séculos 15 e 16: obra promovida por D. Manuel

“A maior campanha de obras é promovida mais tarde por D. Manuel I, entre 1495 e 1521, durante a qual se rasgam completamente dois dos 16 tramos da parede externa, abrindo o espaço a ocidente, através do grande arco triunfal que unirá este espaço à nova igreja manuelina. É desta época, também, o programa decorativo que acentua a riqueza do local. O enriquecimento do programa iconográfico da charola, transformada em capela-mor da nova igreja, incluiu escultura, pintura sobre madeira e sobre couro, pintura mural e estuques.”

Atores no papel de templários: coração da Ordem do Templo

Atores no papel de templários: coração da Ordem do Templo

© Fotos: Eduardo Lima / Walkabout – Todos os direitos reservados

TESOURO UNIVERSAL

Episódio da série Visita Guiada sobre o claustro principal do Convento de Cristo. “Sem exagero, esta é uma das mais belas peças da arquitetura europeia do Renascimento”, diz a apresentadora, Paula Moura Pinheiro, logo na abertura do programa. “Mas este claustro é muito mais que um tesouro universal da arte do Renascimento. É a construção que rompe de vez com o nacionalismo de D. Manuel I e abre Portugal ao cosmopolitismo do Renascimento.”

ÍCONE DA RENASCENÇA

Claustro principal do Convento de Cristo, em Tomar, uma das mais belas peças da arquitetura renascentista europeia. Foi o próprio rei, D. João III, a iniciativa de construí-lo. Contratou para a empreitada o maior arquiteto que passou por Portugal no século 16, João de Castilho. Mas acabou ordenando sua destruição parcial não muito tempo depois. Coube ao escultor e arquiteto Diogo de Torralva a missão de repaginá-lo – dessa vez, bebendo na fonte geométrica da antiguidade clássica.

“Com o país a atravessar uma crise económica, não podia tratar-se apenas de um devaneio real”, escreve a RTP em sua plataforma educativa. “Acredita-se que o monarca teve a nítida percepção de que a obra ia ficar para a posteridade. O claustro de D. João III tem a coragem de romper com as concepções excessivas do estilo manuelino para se aproximar das composições harmoniosas e austeras que floresciam então em Itália e França.”

Claustro principal do convento: geometria da antiguidade clássica

Claustro principal: geometria da antiguidade clássica

© Foto: Eduardo Lima / Walkabout – Todos os direitos reservados

UMA LOUCURA DE COZINHA

Sabe o que é essa estrutura enorme que se ergue até o teto, sustentada por oito robustas colunas de ferro? Uma chaminé. Sim, pois estamos na cozinha do Mosteiro de Alcobaça. Pelo tamanho de tudo nesse ambiente, dá para imaginar que não eram poucas as bocas que precisavam ser alimentadas. Diz uma lenda que o mosteiro foi habitado por 999 monges – cabendo ao rei o número 1.000. A maioria dos historiadores acredita, no entanto, que os monges nunca passaram de 500.

Ao entrar na cozinha vindo do Claustro de D. Diniz, o visitante encontra uma placa com as seguintes informações: “Construída no século 18, no lugar do antigo calefactório, a cozinha nova foi dotada de um tanque de água corrente, integrado no sistema hidráulico do mosteiro, que recebe a água da Levadinha, um braço do Rio Alcoa artificialmente construído para servir o edifício. A imponente chaminé assenta sobre oito colunas de ferro fundido, uma inovação construtiva para a época.” Foi a primeira utilização do ferro na construção civil em Portugal.

A cozinha de Alcobaça: para matar a fome de 500 monges

A cozinha de Alcobaça: para matar a fome de 500 monges

© Foto: Eduardo Lima / Walkabout – Todos os direitos reservados

O MAIS EXPRESSIVO DA EUROPA

Três cliques da fachada principal do Mosteiro de Alcobaça, declarado patrimônio mundial pela Unesco em 1989. Esta é a primeira e maior obra do gótico primitivo português, considerada o monumento mais expressivo da arquitetura cisterniense em toda a Europa.

As alas norte e sul do mosteiro separadas pela igreja: residência do ábade e dos monges

As alas norte e sul do mosteiro separadas pela igreja: morada do abade e dos monges

“A Abadia de Santa Maria de Alcobaça foi construída pelos monges de Cister entre 1178 e 1254, seguindo o modelo da sua casa mãe da Ordem de Cister em Claraval”, explica o site Alcobaca.com. “Visto por fora, o mosteiro – com um comprimento de 220 metros – é formado por três corpos: a igreja, cuja fachada atinge os 43 metros de altura, e as alas norte e sul, onde, respectivamente, situavam-se os aposentos dos reis e da corte em visita e as residências do abade e dos monges.”

A fachada vista das ruínas do castelo: reformada no século 18

A fachada vista das ruínas do castelo: reformada no século 18

“Da fachada original vêem-se as ameias na cobertura lateral, o portal gótico e os janelões laterais. Os torreões barrocos são um acrescento do século 18, aquando das grandes obras pombalinas dirigidas por Frei João Turriano.”

O portal: um dos poucos traços preservados da fachada gótica

O portal: um dos poucos traços preservados da fachada gótica

© Fotos: Eduardo Lima / Walkabout – Todos os direitos reservados

BLUE HOUR EM ALCOBAÇA

BLUE HOUR EM ALCOBAÇA

Oito horas da noite e eu encarapitado nas ruínas do castelo de Alcobaça. Deveria estar jantando no António Padeiro ou tomando uma ginja local, que é das melhores. Seria justo, depois de um dia exaustivo de trabalho. Só que não, ainda … Continuar lendo

PÓRTICO FLAMEJANTE

Um mergulho no pórtico de entrada do Mosteiro da Batalha, obra-prima do Gótico Flamejante. Os textos que acompanham as imagens são da DGPC (Direção-Geral do Património Cultural).

Mosteiro da Batalha

Mosteiro da Batalha

“Quando nos aproximamos da fachada principal, deparamo-nos com um portal totalmente esculpido, definido por um arco de linhas curvas e contracurvas que acaba numa parte pontiaguda onde estão esculpidos os escudos de armas de D. João I e de D. Filipa de Lencastre.”

Mosteiro da Batalha

Mosteiro da Batalha

“No topo aparece Cristo coroando a Virgem e só depois, dentro do próprio arco, separando estas imagens das outras, é que aparece todo o resto. Este arco representa a Corte Celestial e tem seis arquivoltas de arco quebrado que, na parte superior, formam o tímpano onde estão os quatro evangelistas com os respectivos atributos e Cristo em Majestade.”

Mosteiro da Batalha Mosteiro da BatalhaMosteiro da Batalha

“As arquivoltas têm 78 imagens separadas entre si por baldaquinos e que, à medida que se aproximam do centro, representam um grau mais elevado na hierarquia da Igreja. São elas as seguintes: nas duas últimas arquivoltas, Santos, Santas e Mártires; na seguinte, os Reis de Israel;  depois, os profetas; na segunda, os anjos músicos com os instrumentos musicais medievais, como é o caso do órgão portativo, charamela, saltério, viola de arco etc.; e, na primeira, os serafins, representados com os seus três pares de asas e simbolizando o grau mais elevado na hierarquia angelical.”

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“Nas jambas do portal, temos 12 figuras que se destacam pelo seu tamanho, consideravelmente superior ao das outras. São elas os 12 Apóstolos, aqui também representados como sendo os pilares da Igreja, uma vez que se encontram a suportar todas as outras figuras, indicando claramente a simbologia do ide e espalhai pelos quatro cantos…

© Fotos: Eduardo Lima / Walkabout – Todos os direitos reservados

OS CICLISTAS DA BATALHA

OS CICLISTAS DA BATALHA

Um momento meio mágico no Mosteiro da Batalha, expoente máximo da arte gótica em Portugal. Eu ainda procurava o melhor quadro para a foto quando os dois ciclistas atravessaram a cena. Meu dedo indicador da mão direita instintivamente pressionou o … Continuar lendo

UM ANO NA WEB!

Hoje, Portugal – Patrimônios da Humanidade faz aniversário. O projeto está completando seu primeiro ano na web. Para não deixar a data passar em branco, publico uma galeria com os 13 dos 16 patrimônios mundiais portugueses que já foram fotografados. À noite, talvez eu abra uma garrafa de porto para comemorar. Adoraria poder compartilhá-la com cada um dos mais de 13 mil internautas que nos acompanham aqui e nas redes sociais. Afinal, sem vocês este projeto não existiria. Agradecemos do fundo do coração o apoio dessa incrível comunidade. E que venha 2015, um ano decisivo para as nossas pretensões.

Torre de Belém

Torre de Belém

Mosteiro dos Jerónimos

Mosteiro dos Jerónimos

Sintra

Sintra

Mosteiro da Batalha

Mosteiro da Batalha

Mosteiro de Alcobaça

Mosteiro de Alcobaça

Coimbra

Coimbra

Guimarães

Guimarães

Porto

Porto

Douro

Douro

Vale do Côa

Vale do Côa

Elvas

Elvas

Évora

Évora

© Fotos: Eduardo Lima / Walkabout – Todos os direitos reservados